UM PROTESTO HIST√ďRICO, MENOS NA TEV√ä

Dezenas de milhares de mulheres sa√≠ram √†s ruas para bradar #EleN√£o no √ļltimo s√°bado (29), em cidades de todas as regi√Ķes do Brasil. Juntas, produziram as maiores manifesta√ß√Ķes populares desta elei√ß√£o presidencial, de longe. N√£o se sabem n√ļmeros exatos porque a pol√≠cia, sintomaticamente, n√£o contou na maioria das cidades. Mas as manifestantes ocuparam densamente amplas √°reas da Cinel√Ęndia, no Rio, e do Largo da Batata, em S√£o Paulo, para citar s√≥ duas. Em uma campanha na qual rarearam os com√≠cios, tamanha aglomera√ß√£o de gente contra um candidato √© not√≠cia. E foi: em ingl√™s, franc√™s, √°rabe. Mas o brasileiro que passou o dia na frente da tev√™ n√£o ficou sabendo. A menos que tivesse um celular na m√£o. O epis√≥dio sintetiza todas as principais marcas da elei√ß√£o presidencial de 2018 no Brasil.¬†

Em lugar da propaganda eleitoral televisiva, quem mobilizou os eleitores contra e a favor de candidatos foram as m√≠dias sociais, notadamente o WhatsApp. Foi uma hashtag distribu√≠da via Twitter, Facebook e Instagram que levou as maiores multid√Ķes √† rua, n√£o foram an√ļncios de tev√™. ¬†

Os efeitos mais profundos dessa mudan√ßa s√£o potencialmente revolucion√°rios, pois todo o jogo de poder dentro dos partidos pol√≠ticos gira em torno da distribui√ß√£o do tempo de propaganda eleitoral e das verbas p√ļblicas. Se a tev√™ perde influ√™ncia, perdem junto os caciques partid√°rios que controlam a distribui√ß√£o de tempo de c√Ęmera entre seus correligion√°rios.¬†

Tamb√©m perdem poder de barganha partidos que s√≥ existem para negociar minutos de tev√™ ao formarem coliga√ß√Ķes eleitorais. Principal propaganda desse novo jeito de fazer campanha pol√≠tica √© o candidato que lidera as pesquisas de inten√ß√£o de voto e tem menos de 10 segundos por dia de propaganda na tev√™.¬†

Perca ou ganhe, Bolsonaro √© o personagem do ano por ter sido o √ļnico candidato capaz de surfar at√© o fim a onda de conservadorismo que tomou o pa√≠s como um tsunami, e numa prancha de isopor: sem propaganda de tev√™, sem marqueteiro, sem partido. Mas o fez destilando tanto √≥dio contra tantas minorias que a rea√ß√£o a ele acabou provocando a maior manifesta√ß√£o de rua de toda a elei√ß√£o. N√£o √© de agora o movimento de mulheres contra Bolsonaro.¬†

Desde o come√ßo da campanha, o capit√£o reformado sempre teve muito mais dificuldade de vender suas ideias repressivas ao eleitorado feminino do que ao masculino. O #EleN√£o catalisou o sentimento contra Bolsonaro e transformou algo difuso em uma a√ß√£o simult√Ęnea e concreta de dezenas de milhares de mulheres. S√≥ n√£o foi maior porque a cobertura da campanha eleitoral na tev√™ √© deliberadamente omissa e limitada. N√£o faz reportagem, entrevista; n√£o investiga, divulga agendas. Se parte dessa omiss√£o pode ser explicada pelas limita√ß√Ķes impostas pela legisla√ß√£o eleitoral que tange o direito √† informa√ß√£o dos telespectadores, nem tudo, por√©m, cai nessa conta.¬†

A falta de cobertura ao vivo dos atos do #EleN√£o e, mais grave, a aus√™ncia de contextualiza√ß√£o e √™nfase nas raras reportagens sobre a mais importante manifesta√ß√£o de rua da campanha eleitoral de 2018 at√© agora n√£o se deve ao departamento jur√≠dico das emissoras. O movimento n√£o √© partid√°rio nem promove nenhuma candidatura espec√≠fica. √Č contra um candidato, sim, mas n√£o prega que √© melhor votar neste ou naquele outro. ¬†

O resultado dessa omiss√£o e falta de contextualiza√ß√£o √© que coisas diferentes s√£o tratadas como iguais. Uma manifesta√ß√£o de dezenas, no m√°ximo centenas de pessoas em um lugar √© apresentada da mesma maneira e com a mesma magnitude que dezenas de milhares de mulheres em d√ļzias de cidades.¬†

Na tela da tevê, o ato solitário pró-Bolsonaro em Copacabana foi equivalente à maior manifestação popular capitaneada por mulheres na história do Brasil. Felizmente, a internet provê o que a tevê omite. 

Fonte: Folha Piauí