IX ENCONASA: Diversidade do Semiárido marca painel sobre a resistência dos povos e dos territórios

Povos e Territ√≥rios: Resistindo e Transformando o Semi√°rido. Foi com este tema que o IX EnconASA deu in√≠cio ao seu segundo dia. No painel, uma diversidade de povos e territ√≥rios para contar suas hist√≥rias de lutas e resist√™ncias. A mesa contou com a presen√ßa de Elias Freires, representante da juventude rural de Pernambuco; Maria Rosalina dos Santos, representando comunidades quilombolas do Piau√≠; Ivaneide Maria Souza Santos, lideran√ßa na comunidade √≠ndigena Xakriab√°, do norte de Minas Gerais; Ivone Brilhante, do movimento de mulheres da Chapada do Apodi; Lourdes Vicente, do Movimento dos Sem Terra; al√©m do Professor Dr. Roberto Marinho, do Rio Grande do Norte que levantou reflex√Ķes sobre o movimento de lutas, resist√™ncias e transforma√ß√Ķes do Semi√°rido.

O jovem pernambucano, Elias Freires, iniciou as falas ressaltando a ocupa√ß√£o das escolas como exemplo de empoderamento dos jovens. Ele apontou ainda, a import√Ęncia das organiza√ß√Ķes da sociedade civil na forma√ß√£o dos jovens, que passam a participar de espa√ßos pol√≠ticos com uma vis√£o mais cr√≠tica dos processos de luta. "O jovem n√£o √© o futuro. √Č o presente e o futuro da na√ß√£o. O jovem pode ser lideran√ßa, um vereador, um prefeito, hoje, e n√£o esperar apenas pelo amanh√£. Temos que trabalhar a juventude no presente. As organiza√ß√Ķes da ASA est√£o transformando o Semi√°rido. Hoje sou uma lideran√ßa gra√ßas a essas forma√ß√Ķes pol√≠ticas.¬†Juventude que ousa lutar, constr√≥i o poder popular", conclui Elias, convidando todos a um grito de ordem.

Rosalina dos Santos, representante do povo quilombola do Piau√≠, segue no painel levantando quest√Ķes desafiantes para o povo negro e quilombola. "Desde o processo de coloniza√ß√£o do Brasil os negros vieram e passaram por processos dif√≠ceis. Fomos obrigados a falar a l√≠ngua dos outros, a plantar sementes dos outros, a aprender a religi√£o dos outros, mas resistir aos desafios impostos, ao longo da hist√≥ria. N√£o conseguiram tirar nossa autoestima e nossas energias. Nossas organiza√ß√Ķes foram suficientes para resistir", revela. No Brasil, segundo Rosalina, s√£o mais de 5 mil comunidades quilombolas, sendo que a maior concentra√ß√£o est√° no semi√°rido. As amea√ßas tamb√©m s√£o muitas. Rosalina conta que muitas comunidades est√£o em territ√≥rios visados pelas mineradoras e pelos grandes projetos de explora√ß√£o. Por isso, est√£o sendo atacadas. "Entendemos que os territ√≥rios s√£o a nossa vida, onde desenvolvemos sentimento de perten√ßa, onde nossa vida est√° enraizada. Territ√≥rio √© vida!", finaliza Rosalina.

Ivaneide Maria Souza Santos, da comunidade indígena Xakriabá, norte de Minas Gerais, contempla os desafios para o seu povo, principalmente, nos conflitos na luta pela terra e território. "A gente não quer tomar terra de ninguém, queremos o que sempre foi nosso por direito, e nos foi tomado. Estávamos às margens do Rio São Francisco e fomos obrigados a sair em nome do desenvolvimento e dos grandes projetos de irrigação. Isso foi mortal, porque mudou nossa relação com o rio", conta. Ivaneide diz que hoje as crianças não sabem mais nadar porque não têm mais relação com o rio e morrem afogadas. "O rio foi retirado da gente. Tudo o que temos hoje foi com muita luta e muito sangue". Neide, como se apresenta, diz que o sonho do povo Xakriabá é retomar as terras da margem do Rio São Francisco.

Os conflitos na Chapada do Apodi também foram contemplados no painel por Ivone Brilhante, representantes das mulheres do Apodi. Ela conta que estão o tempo todo em conflito e querem expulsar as famílias dos territórios para acabar com a agricultura familiar. Ivone afirma ainda, que a população local não é vista e nem valorizada porque não produzem para exportar. Produzem para alimentação da família, para a qualidade de vida. "O agronegócio está engolindo nosso país. Quando você produz, você sabe o que esta comendo", alerta.

Lourdes Vicente, do Movimento Sem Terra, finaliza as falas das resist√™ncias lembrando que esses povos do Semi√°rido s√£o muitos. Ela cita os quilombolas, os ribeirinhos, as marisqueiras, os pescadores, os camponeses, os sem terra, mulheres e homens trabalhadores rurais. Ela diz ainda que a luta precisa de bandeiras para se fortalecer e agregar a√ß√Ķes em redes. √Č a Agroecologia, enquanto projeto pol√≠tico, modo de produ√ß√£o e cultura; feminismo; justi√ßa ambiental, soberania alimentar, defesa das sementes, valoriza√ß√£o das pessoas e dos saberes.

Que transformação é essa?

Com essa pergunta, o professor Roberto Marinho inicia suas reflex√Ķes a partir das hist√≥rias de resist√™ncias contadas no painel. Para Marinho, falar de resist√™ncia √© mais do que falar que o povo resiste √†s dificuldades causadas pela estiagem. Ou falar que houve diminui√ß√£o dos √™xodos, dos saques e da mortalidade infantil no Semi√°rido. Falar de resist√™ncia √© falar de um povo que, al√©m de resistir, est√° transformando o Semi√°rido. O professor faz um hist√≥rico das pol√≠ticas voltadas ao desenvolvimento do Semi√°rido com a concep√ß√£o de combate √† seca e a mudan√ßa, como a luta dos movimentos sociais e principalmente da ASA, para a concep√ß√£o da conviv√™ncia. Ele aponta ainda, como √© importante n√£o perder o sentido da hist√≥ria. De uma hist√≥ria de resist√™ncia que tem 300 anos e come√ßa quando os colonizadores adentram o interior do pa√≠s, com as divis√Ķes dos latif√ļndios entregues aos coron√©is.

"Com a cria√ß√£o de gado, a expans√£o territorial se depara com as terras ind√≠genas gerando conflitos que permanecem at√© hoje. A resist√™ncia desses povos j√° come√ßa a√≠. Os colonizadores queriam as melhores √°reas, que j√° estavam ocupadas pelas comunidades ind√≠genas", conta. Marinho lembra tamb√©m o canga√ßo e o messianismo como formas de resist√™ncia. "Era o povo pobre e massacrado pelo coronelismo, pela ind√ļstria da seca que diminu√≠a a capacidade de resist√™ncia". O professor ressalta ainda que, a partir da cria√ß√£o da ASA, passou-se a construir um projeto pol√≠tico de transforma√ß√£o do Semi√°rido brasileiro. "Pela primeira vez, no s√©culo XXI, conseguimos dar passos para a transforma√ß√£o do Semi√°rido brasileiro. As mazelas, os conflitos e amea√ßas do hidro e do agroneg√≥cio continuam, mas o movimento tamb√©m se fortalece nas resist√™ncias dos seus povos", finaliza.

FONTE: ASA